Artigo
Por que o concorrente aparece e eu não
Por que o concorrente menor aparece e eu não?
Por Daniel Sócrates · · Do capítulo 8 do livro
O site do concorrente é menor que o seu. Ele publica menos, tem menos página, tem menos tempo de estrada, e mesmo assim é ele que aparece quando alguém pergunta sobre o assunto de vocês dois.
Você publica desde sempre, sem falhar uma semana. Artigo sobre o serviço principal, guia completo, a nota da confraternização da equipe, o texto sobre inteligência artificial que todo mundo do mercado escreveu naquele mês, a homenagem de Dia das Mães.
Nenhum desses conteúdos é errado. Cada um foi aprovado por alguém, por um motivo razoável, numa reunião razoável.
Só que existe uma conta rodando por baixo dessa agenda, e ela não aparece em relatório nenhum. É dela que trata este texto.
Não é sobre quem publica mais
Duas placas na mesma rua, quase de frente uma para a outra. A primeira diz cardiologia. A segunda diz clínico geral, dermatologia, nutrição, acupuntura e exames laboratoriais.
As duas podem ser excelentes. O profissional da segunda placa pode ter mais anos de estrada, mais pacientes atendidos, mais sala e mais equipamento.
Quando a pergunta na rua é sobre coração, uma das duas placas responde sozinha. A outra precisa de explicação. Autoridade não é quantidade de placa, é a certeza que a placa produz sobre um assunto.
O açougue da esquina começou a vender celular. Primeiro foi uma vitrine de carregadores perto do caixa, porque dava margem boa. Depois duas prateleiras.
Hoje um cliente novo entra e leva quinze segundos para descobrir o que se vende ali. Nenhuma daquelas decisões foi burra, e a soma delas apagou o endereço.
O seu calendário editorial pode estar fazendo exatamente isso, um post por vez, com aprovação de todo mundo.
O seu site tem um endereço que ninguém escreveu de propósito
Para o sistema que lê tudo o que você publica, o seu site fica num lugar, e esse lugar é a média de tudo o que você publicou.
Cada texto novo puxa esse ponto médio um pouquinho para algum lado. A confraternização puxa. O Dia das Mães puxa. O texto sobre o assunto da moda puxa mais forte do que você imagina, porque ele está longe de tudo o que você é.
Agora imagine dois alfinetes espetados num mapa ao mesmo tempo. Um é o do seu site inteiro. O outro é o da página que você publicou hoje de manhã.
Entre os dois existe uma distância, e alguém do outro lado mede o comprimento desse barbante. Duas palavras carregam isso pelo resto do texto. O ponto do site é o centro. O quanto as suas páginas se afastam dele é o raio.
Volte às duas placas com essas duas palavras na mão. Uma clínica de fisioterapia publicou oitenta textos em dois anos, entre alongamento, alimentação, motivação, novidades da casa e datas comemorativas. A outra publicou trinta, todos sobre dor lombar.
A primeira tem raio grande e centro em lugar nenhum. A segunda tem um centro que dá para apontar com o dedo. E o estrago da primeira não aparece onde ela procura, porque o texto sobre o assunto da moda até traz visita enquanto a página de serviço fica parada.
Isso está escrito em documentação, com nome de campo
A documentação interna do Google que vazou em 2024 tem um módulo chamado QualityAuthorityTopicEmbeddings, com qualidade, autoridade, tópico e embeddings grudados no mesmo nome de arquivo.
Dentro dele existe um campo chamado siteFocusScore, descrito literalmente como “Number denoting how much a site is focused on one topic”. Um número que denota o quanto um site está focado em um tópico.
Alguém escreveu, numa documentação de engenharia, um campo cuja função declarada é dizer o quanto um site está concentrado em um assunto. A medida vale para o site inteiro, e não para uma página.
O segundo campo entrega a geometria. O siteRadius é definido como “The measure of how far page_embeddings deviate from the site_embedding”, a medida de quanto as páginas se desviam do ponto do site.
Os outros três campos do mesmo módulo fecham a conta. Dois deles guardam a coordenada do site e a coordenada da página. O terceiro é um número de versão, que avisa que esses valores mudam de tempos em tempos.
Todos esses nomes e descrições foram conferidos ao vivo no espelho público da documentação em 1 de agosto de 2026.
Agora eu preciso desenhar uma linha na areia, porque este é o ponto em que mais gente escorrega. O fato é que os campos existem, com esses nomes e essas descrições, dentro de documentação de engenharia autenticada.
A minha leitura começa depois disso. Se o Google avalia autoridade sobre um assunto assim, hoje, na busca que você usou de manhã, eu não sei, e ninguém de fora sabe. O que existe é a planta de um sistema, e planta não é fotografia do prédio em funcionamento.
Publicar fora do assunto não é o mesmo que publicar mal
Existem duas formas diferentes de um site se espalhar, e elas moram em campos diferentes da mesma documentação.
A primeira é de assunto. As suas páginas tratam de temas que se afastam uns dos outros, e é isso que o siteRadius descreve.
A segunda é de qualidade. Metade do seu site é muito bom, e a outra metade foi feita às pressas em 2019, por gente que nem trabalha mais com você. Existe outro campo para isso, o siteQualityStddev, descrito como uma estimativa do desvio das notas de qualidade página a página dentro de um site.
Um escritório de advocacia publicou oitenta textos, todos sobre direito de família, e quarenta deles foram feitos para cumprir tabela. Raio pequeno, qualidade espalhada.
Um segundo escritório publicou oitenta textos impecáveis, quarenta sobre direito de família e quarenta sobre marketing jurídico. Qualidade uniforme, raio grande.
Os dois têm oitenta textos no ar e os dois têm um problema. Os problemas moram em campos diferentes e pedem conversas diferentes.
Aqui mora a confusão mais cara do assunto. Um texto sobre a confraternização da equipe pode ser bem escrito, bem apurado, ótimo, e continuar longe do centro do mesmo jeito.
Quem sai daqui dizendo “apague tudo que está fora do assunto” fundiu os dois campos. Essa regra não existe em fonte nenhuma, e eu não vou inventá-la.
O Google admitiu, sem querer, que existe um placar do site inteiro
A página pública de políticas de spam do Google define uma prática chamada abuso de reputação de site, e a definição entrega uma coisa que ninguém pediu para ela entregar.
Está lá, com estas palavras.
“Site reputation abuse is a tactic where third-party content is published on a host site mainly because of that host’s already-established ranking signals, which it has earned primarily from its first-party content”
A citação foi conferida ao vivo em 1 de agosto de 2026.
A metade final da frase é o presente. Um site acumula sinais de ranqueamento, e ele os ganha principalmente pelo conteúdo próprio. Isso está escrito pela empresa, em documentação pública, viva e citável hoje.
Repare no que a frase concede sem querer. Ela só faz sentido num mundo em que existe um placar do site inteiro, alimentado pelo que aquele site publica com as próprias mãos, ao longo do tempo.
Esse é o tipo de prova de que eu mais gosto. Ninguém do Google sentou para admitir que existe julgamento em nível de site. A empresa estava resolvendo outro problema, e a admissão saiu de lado.
Uma delimitação antes que você estique isso longe demais. A política trata de conteúdo de terceiros hospedado no seu endereço para aproveitar os sinais que você acumulou. Ela não diz nada, em nenhuma linha, sobre você escrever sobre um segundo assunto.
Existe uma segunda declaração, mais antiga. Em agosto de 2022, ao anunciar o sistema de conteúdo útil, o Google descreveu o mecanismo como um sinal em nível de site. O anúncio dizia que num site com grande quantidade de material pouco útil qualquer conteúdo tende a ir pior na busca.
Escrevo isso sem aspas de propósito. A página original não abriu para conferência literal na minha apuração, então você recebe o conteúdo da declaração com o aviso de que ela chegou por caminho indireto.
Tem mais uma ressalva, e ela joga contra o meu próprio argumento. Em março de 2024, a empresa anunciou que o sistema de conteúdo útil passou a fazer parte dos sistemas centrais de ranqueamento, e a página oficial de hoje não carrega mais aquela formulação. Eu fui conferir, e ela não está lá.
Três documentos, três origens, três funções diferentes dentro da empresa, e nenhum deles menciona os outros dois. Que os três apontem para o mesmo lugar é conclusão minha, e eu marco.
O concorrente menor que ganha do nome grande
Existe medição de fora do Google que ajuda a explicar o seu caso, e ela é a mais direta deste texto.
Kevin Indig analisou mais de 21 mil citações em respostas de inteligência artificial e publicou no Growth Memo em 23 de março de 2026. No estudo dele, a amplitude de cobertura temática pesou mais do que a autoridade de domínio na escolha das fontes.
No mesmo estudo, em nichos de baixa concentração, uma operação focada de 30 a 50 páginas competia de verdade com nomes grandes.
Esse estudo mediu seleção de fontes por sistemas de inteligência artificial, e mais nada. Ele não mediu ranqueamento no Google, e não mediu nenhum daqueles campos do vazamento, que ninguém de fora consegue medir.
Existe ainda um par de números da Ahrefs sobre citações em respostas de IA do Google, e a ressalva vem antes deles. A própria empresa avisa que a metodologia de detecção mudou entre os dois estudos e que os valores não são diretamente comparáveis.
Em julho de 2025, sobre 1 milhão de respostas com IA, a Ahrefs mediu que 76% das páginas citadas também ranqueavam no top 10 orgânico da mesma consulta. Na atualização de 2026, com 863 mil palavras-chave e 4 milhões de URLs, a fatia ficou em 38%, com o restante vindo da posição 11 em diante.
São dois retratos tirados com câmeras diferentes, e quem apresenta isso como queda medida fabricou uma série que a própria fonte desautoriza.
Com a ressalva colada, os dois retratos autorizam uma frase só. A citação aparece menos presa ao primeiro lugar da consulta exata e mais espalhada pelo território inteiro do tema.
Isso muda o que você persegue. Perseguir a primeira posição de um termo é um trabalho. Estar de pé em todo o entorno daquele assunto é outro, e o segundo passou a render mais.
Ter território, ainda assim, não garante o seu nome dentro da resposta de uma IA. Entre uma coisa e outra existem etapas, cada uma com um critério próprio e um jeito próprio de te barrar, e elas estão em os quatro portões entre publicar e ser citado por uma IA.
E os sites gigantes que falam de tudo?
Você está com uma objeção na ponta da língua, e ela é boa. Portais de notícia, marketplaces e enciclopédias falam de tudo e ranqueiam muito bem.
A resposta honesta tem três partes, e nenhuma é confortável para quem vende fórmula.
Os campos medem concentração, e nenhum documento afirma que concentração alta é sempre melhor. Medir uma coisa e premiar uma coisa são verbos diferentes, e o vazamento só documenta o primeiro.
Nenhum peso é conhecido. Nenhum campo daquele módulo vem com percentual, com escala pública ou com meta, e o número de versão avisa que os valores mudam de tempos em tempos.
Autoridade em nível de site é uma medida entre muitas. Uma medida sozinha não decide uma lista de resultados, e eu nunca vou te dizer o contrário.
Tem uma segunda objeção, e ela vem com dado na mão. No mesmo estudo de 21 mil citações, páginas acima de 20 mil caracteres tiveram média de 10,18 citações, contra 2,39 das páginas abaixo de 500 caracteres.
Olhe o que cada coisa mede. Aquele estudo mede tamanho de página contra citação por inteligência artificial, e este texto trata de foco de site contra autoridade num assunto. Objetos diferentes, perguntas diferentes.
E o achado é correlação, com todas as ressalvas que correlação carrega. Página longa e página que cobre um assunto até o fim costumam ser a mesma página. Ninguém sai daqui com meta de caracteres, porque contar caractere é a versão 2010 de contar palavra-chave.
A régua que ninguém te entrega
Alguém vai te vender um painel bonito com o número de foco do seu site, e esse número não existe fora da ferramenta que o calculou.
Não existe API, relatório ou ferramenta do Google que mostre o siteFocusScore do seu site. Ele nunca foi público, nunca teve escala divulgada, nunca teve meta e nunca teve peso.
Qualquer produto vendido com esse nome está te entregando a estimativa própria dele, calculada pelo método dele. Pode servir de termômetro interno, e ninguém de fora tem como conferir a calibragem.
Uma última palavra sobre o vocabulário do pânico. Nada nesses campos descreve punição. Eles descrevem medida.
Você reconhece o vício pelo verbo. “O Google pune site sem foco” é castigo. “Existe um campo que registra o quanto um site se concentra em um assunto” é medida. A primeira frase te faz apagar conteúdo com medo, e nenhuma fonte deste texto autoriza ela.
Dez títulos e uma frase
Você mede o seu raio à mão em dez minutos, com os títulos que já estão publicados, e ferramenta nenhuma entra na conta.
Abra a lista dos últimos dez conteúdos que você publicou e olhe só os títulos. Não abra os textos, não olhe métrica nenhuma, não julgue qualidade de nada.
Escreva os dez numa coluna, numa folha ou num documento em branco. Embaixo da coluna, escreva uma única frase que descreva o assunto dos dez juntos.
Uma frase só. Sem ponto e vírgula, sem lista disfarçada de frase, sem “entre outros”.
Se a sua frase precisar de um “e também”, você acabou de medir o seu raio. Cada “e também” é um conteúdo puxando a média para outro lado. Se ela precisar de dois, marque nos títulos quais deles obrigaram você a esticar a frase.
Faça mais uma coisa antes de guardar a folha. Escreva ao lado de cada título quem paga a sua conta: cliente, prospecto ou ninguém. É comum descobrir que os textos mais distantes do centro foram os mais elogiados internamente.
A versão de bônus custa um minuto. Mostre a frase única para alguém de fora da sua empresa e pergunte que tipo de negócio publica aqueles dez títulos. Quando a pessoa hesita, o raio está grande.
Essa folha não é o valor que o Google guarda, e nem chega perto dele. Você fez à mão uma versão caseira da pergunta que aquele campo faz, e ela fica na sua mesa.
Frase larga também não vira diagnóstico de doença. Uma editora generalista tem frase larga por projeto, e está tudo certo. O que a folha entrega é uma pergunta melhor para a sua próxima reunião de pauta.
Qual é o seu assunto, em uma frase?
Todo texto novo do seu site passa a ter uma pergunta a mais em cima dele, e ela é curta. Isso aproxima do centro ou aumenta o raio?
Alguém vai dizer, na sua frente, que o seu site precisa ter autoridade. A frase chega sempre assim, solta, sem sujeito e sem régua.
Agora você devolve o resto dela: autoridade sobre qual assunto, e medida de que jeito.
Fica de pé o mesmo limite de sempre, e eu prefiro ser chato a te deixar sair daqui achando bobagem. Foco não compra posição, nenhum campo deste texto tem peso conhecido, e a soma deles não é fórmula.
O ganho imediato não custa nada e não espera nada. Na próxima reunião, quando aparecer o texto sobre o assunto da moda, a pergunta já vem pronta na sua boca. O que acaba hoje é decidir sem saber que existe um custo.